Análise



Análise | Death Stranding - versão para PC

O Kojima não enlouquece

Eduarda Guedes
14/07/2020 16h18

Desde seu nascimento, derivando do já natimorto Silent Hills (cuja demo é o brilhante P.T), Death Stranding deixava mais perguntas do que respostas. Algo muito natural no trabalho de Hideo Kojima.

Sejamos sinceros, todo mundo que assistiu os trailers de Death Stranding se perguntou em algum momento “o Kojima enlouqueceu?”, “que tipo de cogumelos terei que comer para entender isso?”. E não sem razão. Os vídeos envolviam uma praia, mãos surgindo na areia, um bebê, o Guillermo Del Toro na Segunda Guerra Mundial correndo de um Mads Mikkelsen com os olhos cheios de um óleo preto invocando soldados cadavéricos.

E assim, cercado de curiosidade e mistério, começamos Death Stranding. Logo de cara dá pra perceber que o jogo é uma superprodução. Nos créditos na cena inicial já é possível nomes de atores famosos e os gráficos são deslumbrantes.

Você controla Sam Porter Bridges, interpretado pelo Daryl, vulgarmente conhecido como Norman Reedus. Sam é um entregador que trabalha para Bridges em um mundo que tenta sobreviver após o Death Stranding, um misterioso evento apocalíptico. Depois da morte de sua mãe e presidente do UCA (United Cities of America), Sam parte em uma jornada por todo o país conectando diversas pessoas a rede quiral (uma espécie de internet) da Bridges para resgatar sua irmã, Amelie, do vilão Higgs. Confuso? Sim. E acreditem, no decorrer do jogo fica ainda mais.

Pouco se sabe sobre o Death Stranding. Mas, até para evitar spoilers, em resumo, foi um evento que aproximou o mundo dos vivos ao dos mortos, fazendo com que cada pessoa que morre receba sua própria praia, criando uma espécie de multiverso. Além disso, há pessoas que morreram e que, por alguma razão, ainda continuam ligadas ao mundo dos vivos. Estas são as temidas BTs - Beached Things - ou EPs – Entidades da Praia -, os principais inimigos do jogo.

Esta é a premissa bem básica do jogo.

Tecnicamente, é difícil encontrar falhas consideráveis no jogo.

Os gráficos são lindos. Todas as paisagens são extremamente bem-feitas, os personagens tem expressões faciais bem convincentes e há diversos pequenos detalhes que enriquecem ainda mais visualmente o jogo.

Prova disso é a chuva quiral. Sua água acelera a passagem do tempo de tudo que toca (sim, mais um ponto muito louco do universo do jogo) e é possível perceber que ao redor dos pés do Sam diversas plantas nascem, crescem e morrem. Os detritos soltos pelos pneus das motos são detalhados e realistas. Se tiverem um PC que possibilite configurar os gráficos no máximo, recomendo fortemente que o façam.


Se me permitem um conselho, joguem com fone de ouvido. Dê preferência àqueles com um noise cancelling bem eficiente. A experiência sonora é incrível. Os momentos de solidão caminhando em um mundo pós apocalíptico são, não raro, incrementados pelas músicas da banda islandesa Low Roar cuidadosamente selecionada pelo Kojima para deixar a experiência ainda mais memorável. Além disso, o trabalho de dublagem também é espetacular.

Concluindo, tecnicamente, Death Stranding é impecável. Convenhamos que não é surpresa, tendo em vista que estamos falando de Hideo Kojima.

Agora, ao analisar Death Stranding unicamente como um jogo, a coisa fica um pouco controversa.

Eu nunca acreditei nisso de que alguns jogos não são pra qualquer um. Jogos são para todos! Até mesmo os já famosos da série Souls, Bloodborne e Sekiro são jogos para todos. Claro, são para todos que estejam dispostos a uma curva de aprendizado bem acentuada, progressão lenta, tentativa e erro..., mas isso é assunto pra depois!

Quanto ao que interessa, Death Stranding, ele não é para qualquer um. Vivemos um momento onde impera uma certa crise de criatividade. Não apenas nos jogos, mas em todos os ramos de criação de conteúdo. Prova disso é que diversos jogos são apenas copycats de outros. Poderia exemplificar aqui, mas de novo, não é o momento. São poucos jogos que são fora da curva. E Death Stranding é fora da curva, e muito!


Se você associa automaticamente o Kojima ao Metal Gear, provavelmente você vai se decepcionar. Tirando o nome do criador, não possuem nada em comum.

É possível resumir Death Stranding com a seguinte frase: vá do ponto A ao ponto B carregando X, Y e Z. Em boa parte, o jogo será isso mesmo.

Há partes de ação, como os encontros com as BTs, os Mulas e até Boss Fights. Mas nada que descaracterize muito a proposta do jogo.

Se é preciso bastante abstração para entender a história de Death Stranding, é preciso ainda mais para entender o conceito do jogo. Será necessário se despir realmente daquilo que você entende como um jogo para aproveitar ao máximo essa obra-prima de Hideo Kojima. E acreditem, vale muito a pena!

Aconselho fortemente vocês a entrarem na imersão profunda que o jogo oferece. Kojima discute várias questões sensíveis, como vida e morte, evolução, extinção... E o principal: o que conecta as pessoas.

Você vai se fazer essa pergunta quando perceber que utiliza diversas estruturas construídas por jogadores cujos rostos e nomes você nunca vai saber. E eles fizeram isso com um único propósito: ajudar! Será que é essa bondade, essa gentileza que une as pessoas?

A questão da conexão é aprofundada no jogo. Sam tem afefobia, ou seja, medo ou aversão ao toque humano. Como ele cria conexões importantes com pessoas do jogo assim? O BB (o neném dos trailers) é meramente um equipamento. Mas será que é só isso?

E conexões interpessoais sem contato direto, sem conhecer quem está do outro lado, afeto sem aproximação... Parece bem atual, não? Vivemos uma pandemia em que temos que ficar distantes até mesmo de quem nos é mais querido. Como nos mantemos conectados a eles?

São diversas questões filosóficas debatidas e apresentadas brilhantemente como apenas Kojima consegue fazer.

Bom, concluindo: Death Stranding é um dos jogos que surgem uma vez a cada muito, muito tempo. Mas, seu proveito máximo não vem de graça. É necessário pensar um pouco mais fora da caixa e encará-lo não apenas como um jogo de videogame, mas como uma experiência e se deixar envolver por todos os personagens e todas as questões trazidas.

Agradecemos 505 a pelo envio do jogo para a análise.

AvaliaçãoNota
História 9
Jogabilidade 9
Visual 8
Áudio 10
Replay 5

NOTA FINAL

8.20

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